A Nokia e os seus defuntos

Há uma hora, no evento Nokia Connection 2011, em Singapura, houve o lançamento oficial do N9, o futuro topo de linha da Nokia.

O aparelho tem um Hardware de tirar o chapéu. Vejamos:

* Tela AMOLED de 3,9″ de vidro resistente a riscos
* Resolução de 800×480
* Câmera de 8MP com foco automático e lentes Carl Zeiss
* Captura de vídeos em HD
* Som com tecnologia Dolby Digital Plus e Dolby Headphone
* NFC (maneiro!)
* Processador 1GHz (gostaria de saber qual é)
* 1GB de RAM
* Armazenamentos de 16 e 64 GB

E aquelas outras coisas que a gente nem presta atenção:

Bluetooth, aplicativos Qt, vídeo player em 16:9, bateria interna (bate na madeira para ser melhor do que a do N8), Sistema MeeGo…

Peraí!!! MeeGo? Eles disseram MeeGo???

Isso mesmo. A Nokia parece que tem pena de enterrar seus defuntos.

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Montagem com a tela do jogo Plants vs. Zombies

Neste evento de hoje, além do N9 com MeeGo, anunciaram o Nokia Maps para S40 (não escrevi errado) e que o Symbian Anna será lançado até Julho. Conseguiram falar de todos os Zumbis num evento só.

E os aparelhos com Windows Phone 7? Bom esses não participaram da festa para os Zumbis.

Pode parecer implicância minha esses comentários, mas eu estava torcendo para ver um WP7 neste evento ou até um celular com Symbian Anna. Confesso que fiquei decepcionado com o MeeGo.

Minha única esperança desse N9 não virar o mico que o N900 foi, é o Qt. Talvez, com a facilidade de se portar programas, o sistema tenha bons aplicativos.

Mas será que os consumidores, vacinados por causa do N900, vão acreditar que dessa vez “tudo vai ser diferente”?

A briga agora é pelo software

Antes de mais nada, por mais que a princípio pareça, este não é um post off-topic. 🙂

Nos idos de 1998, me lembro perfeitamente de uma reunião que tive com vendedor da empresa canadense Nortel, que estava tentando vender uma central de grande porte para um empreendimento imobiliário que havia contratado nossa consultoria para a área de telecomunicações.

As centrais da Nortel sempre foram muito mais caras que as demais, e na época era a mais cara mesmo. Para tentar justificar o valor elevado da central telefônica que estava vendendo, ele mostrava uma lista quase interminável de funções que ela era capaz de executar.

Ao ser questionado sobre algum item de hardware, ele soltou a seguinte frase: “Hoje em dia, em PABX desse porte, o hardware é equivalente em todas as centrais. Quase todas são iguais em características de hardware. O que faz diferença mesmo, é o software que colocam lá dentro. Daqui a alguns anos, se bobear, o hardware vai ser idêntico, mas o software não.”

Na época duvidei que isso pudesse ser verdade, mas pouco mais para frente, em 1999, quando tive contato com um PABX de grande porte da NEC, vimos que o hardware não só era equivalente, como tinha componentes de outras marcas, como SIEMENS e Ericsson em suas placas. A diferença mesmo se notava no software que coordenava aquele elefante.

Ultimamente tenho me lembrado muito daquela frase desse vendedor da Nortel. A diferença agora, é que o item em questão é o celular.

Há uns 3 ou 4 anos atrás, o diferencial de um celular para o outro era basicamente o hardware. Em outras palavras, a diferença era se ele tinha ou não câmera, se a câmera era VGA ou de 1MPx, se tinha câmera frontal, se era Dualband ou triband ou quadriband, se tinha WiFi, se tinha rádio 3G, se tinha bluetooth, se tinha GPS etc. Um celular com todos esses itens de hardware, já tinha um diferencial na hora da venda.

Atualmente, o hardware dos celulares ainda não é 100% igual em todos os aparelhos, mas há alguns itens que viraram padrão, como câmera, bluetooth, 3G, etc. Os itens que ainda não existem em todos os celulares, vão acabar aparecendo, e o hardware vai acabar sendo homogeneizado, guardadas as diferenças de nichos de mercado que sempre deverão existir.

Se o hardware vai ficar homogêneo em celulares da mesma classe, é justamente nessa hora que o software de cada aparelho faz diferença, e aqui não estou falando só de sistema operacional (Symbian, Meego, Android, iOS, BADA, Windows Mobile e WebOS), estou falando principalmente dos softwares de terceiros, que fazem toda diferença.

Vejamos o caso do Nokia N8, comparado com o Motorla Milestone. Em termos de hardware, o N8 parece dar um banho no Motorola, mas na hora em que comparamos a quantidade de programas para um e para outro, podemos nos surpreender com um empate técnico ou com uma vitória para o Milestone.

A câmera do N8 é imbatível (dizem), mas será que teremos tanto software disponível para Symbian^3 quanto temos para Android?

O desenvolvedor do Symbian está cada vez mais desestimulado a criar programas novos por causa da política austera de aprovação de programas na Ovi Store (parece que isso tem mudado, mas eu duvido) e os problemas de distribuição de programas. Já no caso do Android, mesmo com os problemas de pirataria, a Android Market consegue ter quase 3,5 vezes mais programas que a Ovi Store e tem um crescimento mensal (em número de aplicativos) 4 vezes maior que o da Ovi Store.

Se trouxermos para a comparação a loja de aplicativos da Apple, a diferença é muitíssimo maior. A AppStore tem quase 25 vezes mais aplicativos que a Ovi Store e cresce quase 20 vezes mais rápido que a loja da Nokia. Em compensação, há quem diga que o hardware do iPhone 4 pode ser considerado pior do que o do N8 (eu discordo, mas isso não vem ao caso).

Por outro lado o grau de dificuldade de se desenvolver programas para iPhone, não é nada desprezível, apesar de não ser nenhum bicho de sete cabeças. Neste quesito, o Android sai na frente com o Java e a Nokia, com o seu Qt, já está chegando perto.

O ponto aonde eu quero chegar é esse: Cada vez mais o hardware dos aparelhos, pelo menos os topo de linha, vai convergindo para uma configuração única. Por causa disso, a quantidade de programas desenvolvidos para cada uma dessas plataformas faz toda diferença para o usuário.

A meu ver, já não interessa tanto ter um celular com processador dual core de 3GHz, câmera de 25Mpx, Bússola, GPS, Canivete, lenço de papel, café expresso e não se ter programas de terceiros disponíveis ou ter poucos programas disponíveis.

O grande desafio para os fabricantes de celulares, e o mesmo serve para os tablets, é cativar os desenvolvedores, para que eles possam desenvolver e distribuir seus programas de forma melhor e mais barata. O usuário será cativado por tabela, pela quantidade de programas disponíveis e pelo baixo preço dos aplicativos. É no volume que se fará dinheiro e se cativará o usuário.

A Apple aposta numa loja de aplicativos com milhões de usuários e desenvolvedores, mesmo com uma plataforma de desenvolvimento mais complicada. A Nokia aposta numa plataforma de desenvolvimento única para Meego e Symbian, mesmo tendo uma loja de aplicativos bagunçada e burocrática. Os outros vão fazendo uma mistura dessas duas soluções.

Quem vai vencer essa briga? Não sei. Só sei que agora a briga é pelo melhor software.

MeeGo no N900? A Nokia diz que não.

Aqui vai uma ducha de água fria naquelas pessoas que acreditaram na Nokia e investiram 500 dólares (ou mais) no N900. Pois é, pessoal, quem foi todo contente e comprou um N900 achando que poderia ganhar uma atualização do Maemo para o MeeGo, ficou a ver navios. Na verdade não vai ganhar nem mesmo poder comprar uma atualização do sistema para o MeeGo.

A Nokia informou nessa semana que o seu primeiro (e único) celular baseado na plataforma Maemo não receberá atualizações oficiais para a plataforma MeeGo, que é fruto da parceria entre a Nokia e a Intel.

Com razão as pessoas perguntam: “Mas como? O N900 não está sendo usado como plataforma de testes do MeeGo?” Exatamente. É ele mesmo que está sendo usado como plataforma para se testar a versão 1.0 do MeeGo, mas a Nokia afirma o seguinte:

“It’s really about ensuring that you have the best possible experience designed for the features on your Nokia N900 device.”

ou, em português:

“É justamente para garantir que você tenha a melhor experiência possível, projetada para as características do seu dispositivo Nokia N900.”

O N900 tem um hardware invejável. Será que ele não é bom o suficiente para se fazer uma versão do MeeGo que rode de forma aceitável nele? Será que o N900 vai ser o sapatinho da Cinderela?

É uma pena. Só espero que o pessoal que gastou seu rico dinheirinho nesse aparelho coloque a boca no trombone e exija que eles lancem uma versão para o N900. Quem sabe com uma gritaria no ouvido deles, a coisa não mude de figura?