Reflexões em águas gélidas

Passados alguns dias do pulo na água gelada, com muita reclamação, choramingos e uma baita desvalorização das ações da Nokia, é hora de assumir que não se tinha muita alternativa e o “cavalo de troia” Elop parece ter razão. Confesso que é duro pra mim admitir isso, apesar de ter concordado, antes, que era a saída mais provável.
Enquanto o pessoal nada no meio dos icebergs, valem algumas reflexões:

  • O Android realmente não daria nenhum diferencial para a Nokia. O Android é uma extensão da nuvem Google. Veja o esforço que outros fabricantes fazem para personalizá-lo, como Samsung e HTC. Duvido que queiram aquela entrada tradicional, com o sistema lhe obrigando a fazer uma conta no Gmail para uso do aparelho. Ninguém quer ser mais um.
  • A Microsoft lançou mas não decolou. Apesar de ter quatro fabricantes de Windows Phone, o bichinho é mais raro que enterro de anão. Talvez nas terras do tio Sam existam mais exemplares desta espécie rara mas, abaixo dos trópicos e provavelmente na Europa, a coisa não ia bem. LG e Samsung tinham os seus modelos mas basta ver o tanto de Android que ambas lançaram para entender o foco delas. Li por aí que foram aparelhos subsidiados, o que explica muita coisa. Talvez a Dell e HTC, parceiras mais antigas dos sistemas de Redmond, tenham um compromisso mais forte.
  • O Windows Phone tem aspectos inovadores, apesar de só copiar e colar recentemente (piada isso, não?). Bom, o iPhone também começou assim, não é ? Xbox, Office, Exchange, Bing e tudo que a Microsoft tem para oferecer em nuvem fortalecem a arquitetura. E sem contar o desenvolvimento via o tradicional Visual Studio. Não tenho dúvida que aprenderam alguma coisa com as versões anteriores do Windows Mobile <= 6. Aprenderam tanto que até mudaram o nome e reescreveram o sistema.
  • O Meego não está pronto, vamos admitir. Alguns mensageiros do apocalipse e descendentes do capitão Nascimento talvez digam “nunca estará, nunca estará”. Bom, recomendo comparar o WeTab, com Meego, e os protótipos de Tabs Android Honeycomb. Tirem suas próprias conclusões, vai ser fácil. Nem vou colocar o iPad na briga que, enquanto possa ter um conteúdo melhor, não me parece ainda páreo para o Honeycomb. Pelo menos na versão atual, vamos ver quando lançarem o próximo. O que não importa muito, a Apple tem o seu mercado, conquistado com mérito.
  • A participação da Nokia no mercado americano é mínima, e isto eu pude ver de perto, nas ruas e lojas. Em todas as reuniões que fiz nos EUA vi um Nokia apenas uma vez (um E62). Estava na mão de um cara da Cisco que depois descobri que era Francês. Fácil, né ?
  • O Symbian … Ah, deixa pra lá.

Dito isso, não é difícil entender o senhor Elop. Mas que algumas coisas doem, ah isto doem:

  • Já ouviram a expressão “sociedade pé-na-bunda”, onde um entra com o pé e o outro com a outra parte (perdão pelo palavrão) ? Esta foi a minha impressão: a Microsoft entrou com o pé. Li por aí que ela investirá bilhões, etc, etc. Mas, usar toda a rede de distribuição da Nokia, contatos com operadoras, influências em vários mercados, knowhow em hardware e software, serviços de mapas da Navteq, entre outras coisas, “de grátis inteiramente na faixa”, foi foda duro. Nem exclusividade no sistema ela vai ter.
  • Enquanto muitos clamam que o Qt não morrerá, que continuará com o Meego, que será a forma de desenvolvimento para o Symbian, etc, etc, etc, é duro acreditar que umas das plataformas mais interessantes de desenvolvimento que já conheci pode ser colocada em segundo plano. Juntamente com o QtQuick (QML), formam um par poderoso. Mas, se o negócio andar bem com a Microsoft, o futuro do Qt é incerto. Não duvido que vendam ou criem uma outra (a)fundação. Seria ruim perder esta alternativa.
  • O enfraquecimento da comunidade Meego também é traumático, independente do que a Intel ou Nokia diga. Com o apoio da Linux Foundation, o Meego é (era?) um dos maiores bastiões open source do mundo.
  • O orgulho europeu saiu muito ferido disso tudo. Basta ver as reações e o preço das ações da Nokia.
  • Os desenvolvedores também tomaram uma pancada dura, uma parcela grande deles é apaixonada pelo Qt. Provavelmente muitos perderão o emprego.

Enfim, bola pra frente. Sem falar que, para os consumidores, foi excelente.

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