A briga agora é pelo software

Antes de mais nada, por mais que a princípio pareça, este não é um post off-topic. 🙂

Nos idos de 1998, me lembro perfeitamente de uma reunião que tive com vendedor da empresa canadense Nortel, que estava tentando vender uma central de grande porte para um empreendimento imobiliário que havia contratado nossa consultoria para a área de telecomunicações.

As centrais da Nortel sempre foram muito mais caras que as demais, e na época era a mais cara mesmo. Para tentar justificar o valor elevado da central telefônica que estava vendendo, ele mostrava uma lista quase interminável de funções que ela era capaz de executar.

Ao ser questionado sobre algum item de hardware, ele soltou a seguinte frase: “Hoje em dia, em PABX desse porte, o hardware é equivalente em todas as centrais. Quase todas são iguais em características de hardware. O que faz diferença mesmo, é o software que colocam lá dentro. Daqui a alguns anos, se bobear, o hardware vai ser idêntico, mas o software não.”

Na época duvidei que isso pudesse ser verdade, mas pouco mais para frente, em 1999, quando tive contato com um PABX de grande porte da NEC, vimos que o hardware não só era equivalente, como tinha componentes de outras marcas, como SIEMENS e Ericsson em suas placas. A diferença mesmo se notava no software que coordenava aquele elefante.

Ultimamente tenho me lembrado muito daquela frase desse vendedor da Nortel. A diferença agora, é que o item em questão é o celular.

Há uns 3 ou 4 anos atrás, o diferencial de um celular para o outro era basicamente o hardware. Em outras palavras, a diferença era se ele tinha ou não câmera, se a câmera era VGA ou de 1MPx, se tinha câmera frontal, se era Dualband ou triband ou quadriband, se tinha WiFi, se tinha rádio 3G, se tinha bluetooth, se tinha GPS etc. Um celular com todos esses itens de hardware, já tinha um diferencial na hora da venda.

Atualmente, o hardware dos celulares ainda não é 100% igual em todos os aparelhos, mas há alguns itens que viraram padrão, como câmera, bluetooth, 3G, etc. Os itens que ainda não existem em todos os celulares, vão acabar aparecendo, e o hardware vai acabar sendo homogeneizado, guardadas as diferenças de nichos de mercado que sempre deverão existir.

Se o hardware vai ficar homogêneo em celulares da mesma classe, é justamente nessa hora que o software de cada aparelho faz diferença, e aqui não estou falando só de sistema operacional (Symbian, Meego, Android, iOS, BADA, Windows Mobile e WebOS), estou falando principalmente dos softwares de terceiros, que fazem toda diferença.

Vejamos o caso do Nokia N8, comparado com o Motorla Milestone. Em termos de hardware, o N8 parece dar um banho no Motorola, mas na hora em que comparamos a quantidade de programas para um e para outro, podemos nos surpreender com um empate técnico ou com uma vitória para o Milestone.

A câmera do N8 é imbatível (dizem), mas será que teremos tanto software disponível para Symbian^3 quanto temos para Android?

O desenvolvedor do Symbian está cada vez mais desestimulado a criar programas novos por causa da política austera de aprovação de programas na Ovi Store (parece que isso tem mudado, mas eu duvido) e os problemas de distribuição de programas. Já no caso do Android, mesmo com os problemas de pirataria, a Android Market consegue ter quase 3,5 vezes mais programas que a Ovi Store e tem um crescimento mensal (em número de aplicativos) 4 vezes maior que o da Ovi Store.

Se trouxermos para a comparação a loja de aplicativos da Apple, a diferença é muitíssimo maior. A AppStore tem quase 25 vezes mais aplicativos que a Ovi Store e cresce quase 20 vezes mais rápido que a loja da Nokia. Em compensação, há quem diga que o hardware do iPhone 4 pode ser considerado pior do que o do N8 (eu discordo, mas isso não vem ao caso).

Por outro lado o grau de dificuldade de se desenvolver programas para iPhone, não é nada desprezível, apesar de não ser nenhum bicho de sete cabeças. Neste quesito, o Android sai na frente com o Java e a Nokia, com o seu Qt, já está chegando perto.

O ponto aonde eu quero chegar é esse: Cada vez mais o hardware dos aparelhos, pelo menos os topo de linha, vai convergindo para uma configuração única. Por causa disso, a quantidade de programas desenvolvidos para cada uma dessas plataformas faz toda diferença para o usuário.

A meu ver, já não interessa tanto ter um celular com processador dual core de 3GHz, câmera de 25Mpx, Bússola, GPS, Canivete, lenço de papel, café expresso e não se ter programas de terceiros disponíveis ou ter poucos programas disponíveis.

O grande desafio para os fabricantes de celulares, e o mesmo serve para os tablets, é cativar os desenvolvedores, para que eles possam desenvolver e distribuir seus programas de forma melhor e mais barata. O usuário será cativado por tabela, pela quantidade de programas disponíveis e pelo baixo preço dos aplicativos. É no volume que se fará dinheiro e se cativará o usuário.

A Apple aposta numa loja de aplicativos com milhões de usuários e desenvolvedores, mesmo com uma plataforma de desenvolvimento mais complicada. A Nokia aposta numa plataforma de desenvolvimento única para Meego e Symbian, mesmo tendo uma loja de aplicativos bagunçada e burocrática. Os outros vão fazendo uma mistura dessas duas soluções.

Quem vai vencer essa briga? Não sei. Só sei que agora a briga é pelo melhor software.

7 comentários em “A briga agora é pelo software”