Previsões para 2016

Sim, andei sumido. Afinal qual a utilidade de um analista num país onde a única coisa que um analista sensato pode fazer é dizer que enquanto a estocadora de vento e saudadora de todas as mandiocas (sem trocadilhos) estiver no governo tudo vai cair.

Desempregado, estou passando uma temporada como voluntário na legião estrangeira, que me garantiu um repouso adequado da vida estressante que levava, e acompanhando o noticiário na minha conexão 2400bps no Inmarsat pensei nas previsões para 2016 em termos de tecnologia.

1) Talvez o 3G da TIM funcione durante as Olimpíadas. Ainda não foi confirmado, mas fontes internas dizem que estão fazendo um esforço para ter pelo menos uma barrinha de sinal e 64kbps de ultra-velocidade.

2) Mais da metade das fotos de atletas patrocinados pela Samsung, vão aparecer como Sent by iPhone, no Twitter das Olimpíadas 2016.

3) Vão levar tanto celular na mão grande na orla de Copacabana, que se você tiver algo inferior a um iPhone 6S pode ficar tranquilo.

Agora as previsões sérias

a) O Windows Phone 10 vai chegar a 10% de mercado. Este analista já pode ver que se trata de produto de primeira qualidade, inclusive já vi na fila das lojas Americanas duas senhoras que não são propriamente o Bjarne Stroustrup conversando: “mulher, compra o Windows Phone que não pega virus como aquelas porcarias de Android”. Tudo bem que ela aconselhou a passar álcool e veja para matar os vírus, mas você entende a idéia.

b) A plataforma Android passará pela primeira séria infecção de virus que balançará as estruturas de confiabilidade do código aberto.

c) 2016 será o ano em que a Apple lançará o híbrido do iPad com o Macbook.

d) O Facebook começará uma temporada de declínio.

e) O mercado externo de desenvolvimento de software ficará mais atraente. O êxodo de programadores brasileiros se intensificará.

Desejo a todos os leitores um feliz 2016 e agora como já é quase ano novo aqui em Mayotte vou celebrar!

Coreia do Norte ameaça atacar os EUA com armas nucleares. E daí?

Eu nasci nos últimos anos da Guerra Fria e enquanto passava as férias em Angra dos Reis, meu tio e minha tia, que trabalhavam com energia nuclear, gostavam de nos explicar como funcionava uma bomba atômica, como era o processo de fusão e fissão nuclear. Naqueles anos, um pouco antes de Mikhail Sergeyevich Gorbachev, vivíamos ainda sob a constante ameaça de uma guerra nuclear.

Quem nasceu depois da guerra fria pode achar esquisito o medo que tínhamos da guerra atômica e do espanto que hoje tive ao ler a notícia de que a Coreia do Norte afirmou estar pronta para atacar os EUA com armas nucleares. Durante a guerra fria falar algo assim era declarar guerra. Hoje os EUA nem deram muita importância ao assunto.

Um amigo de infância que enveredou por carreira de humanas ligou e perguntou: Você acha que isto pode acontecer? Eu respondi a ele e agora detalho um pouco mais.

Pode, mas é altamente improvável pelas razões que vão a seguir.

1) A Coréia do Norte não tem provavelmente como atingir os EUA. É fato que a Coreia do Norte conseguiu colocar um objeto em órbita. Mas daí a ter um ICBM (intercontinental balistic missile) funcionando vai uma distância razoável. O que pode acontecer é que eles joguem a bugiganga nuclear deles para cima e acertem em algum lugar dos EUA, mas daí a dizer que vai acertar em Washington vai uma boa distância.

2) A Coréia do Norte consegue acertar talvez o Havaí com o míssil Musudan-1, mas convenhamos que não é uma coisa que vá lhes ajudar em nada a não ser fazer um novo Pearl Harbor.

3) A Coréia do Norte é louca mas não é burra. Uma das consequências de um ataque nuclear é que o contra-ataque é garantido. É um dos pilares do Mutual Assured Destruction que garantiu a paz durante a guerra fria.

4) É importante notar que China e Rússia, que tem armas atômicas que funcionam, não vão curtir muito um míssil norte coreano que pode estar desgovernado com armas atômicas. Também não vão gostar muito do contra-ataque dos americanos que transformaria Pyongyang e redondezas num grande deserto.

E o que o Kim Jong-un ganha com a bravata? Por enquanto ele ganhou mais sanções e corte de comida que os americanos forneciam como ajuda humanitária. Talvez seja um jogo de cena para manter o poder, talvez seja uma maluquice que lhe custe o poder.

Imagem do Dailymail

iTunes Store Brasileira, jogos e os desenvolvedores: um texto que você precisa ler.

Ontem, como publicamos neste Blog, a Apple liberou a venda de jogos na iTunes Store brasileira. Escrevo um texto longo, mas acho que vale a pena ler.

O Brasil, por incompetência já conhecida do governo federal, era dos últimos países que não permitia a venda de jogos na loja da Apple.

É uma coisa a ser comemorada, todos ficamos felizes pelos consumidores; no entanto muitos desenvolvedores, eu me incluo entre eles, tinham um certo receio do que poderia acontecer com as suas vendas quando isto ocorresse. Eu pretendo analisar esta questão e deixar alguns conselhos.

Até ontem, um brasileiro que quisesse comprar um jogo, Angry Birds por exemplo, precisaria criar uma conta na iTunes Store Americana e comprar gift cards. O fato é que nem todos sabiam ou conseguiam operar desta maneira. Uma consequência, pelo menos muitos percebíamos assim, era que colocar um jogo entre os Top25 da iTunes App Store brasileira não era algo difícil. Muitos desenvolvedores locais estavam tendo boas receitas vendendo seus produtos aqui no Brasil.

A coisa funcionava como uma reserva de mercado, para os que são muito jovens para lembrar desta época da história recente do brasil deixo este link. Por falta de competição de alta qualidade, muitos de nós conseguíamos vender ou ter muitos downloads de jogos inferiores aos que os americanos, ingleses, japoneses e até argentinos compravam.

Agora, penso que todos os que fazemos jogos estamos com um certo receio: o que vão ser das minhas vendas e dos meus downloads? Será que vou perder muito dinheiro?

Sem fazer um exercício de adivinhação não consigo escrever uma resposta, ainda não tenho dados reais para sustentar uma análise precisa. Mas vamos ver alguns cenários, se você tiver paciência de seguir lendo.

É de se esperar que alguma perda financeira irá acontecer nos primeiros dias. Haverá, já está acontecendo agora enquanto escrevo, uma avalanche de pessoas comprando Angry Birds, Where is my Water, PvZ, etc. Isto significa que estas pessoas ficarão ocupadas com estes jogos e não irão baixar o SEU jogo: Boliche Medieval, Desafio das Bolinhas, etc.

Por outro lado, é de se esperar um aumento de tráfego na App Store brasileira. Muita gente que comprava via gift cards na loja americana vai parar de fazer isso e preferir comprar com seu cartão de crédito na loja brasileira. Alguns que faziam jailbreak para piratear jogos de 0,99 centavos vão ver que não compensa o trabalho e irão pagar .99 para ter o jogo de maneira mais confortável. Outros que compravam Apps mais esporádicamente serão mais assíduos frequentadores da App Store para adquirir os games best sellers e consequentemente podem comprar outros jogos e produtos.

Outro fato positivo: os desenvolvedores brasileiros não precisarão colocar seus jogos na categoria Entretenimento e por conseguinte terão uma maior exposição fora do Brasil.

Há desafios e oportunidades. É possível ter mais sucesso, mas é preciso mudar a estratégia. No início dos anos 90, quando o ex-presidente Collor acabou com a reserva de mercado em informática houve empresas que se reinventaram e prosperaram outras continuaram como estavam e morreram.

E que conselhos você daria para os desenvolvedores brasileiros? Confesso que venho pensando neste cenário há muitos meses, mas ainda não tenho uma resposta definitiva; não é fácil fazer uma boa análise sem dados reais. Posso oferecer algumas sugestões de bom senso e no futuro, espero que seja breve, quando tiver uma estratégia mais concreta, escrever outro texto.

  1. Melhore a qualidade do seu jogo: é um conselho obvio, mas que não é tão fácil de implementar. “Adapt or die” – ou você faz algo que as pessoas queiram jogar por algum tempo ou você será engolido pela avalanche de títulos de jogos que serão ofertados por aqui.
  2. Pense em aplicativos fora da categoria jogos: o mercado não jogos é bem menor e exige muito mais suor para crescer, mas não é desprezível. Você diversificando pode conseguir compensar em outra categoria o que perdeu com jogos. Posso dizer que há alguns meses conseguimos subir nossa fatia de vendas de aplicativos não jogos de 15% para 30%.
  3. Estude formas de comer parte do mercado que você tinha menos acesso antes. O mercado de Apps no Brasil é 20 vezes menos que o dos EUA, metade da Austrália, 5 vezes menor que a Inglaterra, oito vezes menor que o Japão, um terço do mercado chinês, metade do mercado coreano, etc. Antes você estava confinado na categoria entretenimento, lance uma nova versão e mude-se para a categoria jogos. Traduza seu jogo em outras línguas: há serviços em conta para fazer isto.

Não poderia deixar de mencionar a importância, já aqui comentada, de pressionar o governo. Os últimos dez anos com Lula e Dilma trouxeram um grande atraso tecnológico para o Brasil. Os danos que o enfraquecimento das agências reguladoras (em especial a Anatel) trouxe sentiremos e estamos percebendo. A falta de infra-estrutura, os impostos achacantes, a dependência de um estado paquidérmico e ineficiente, juros elevadas, praticamente inexistência de capital de risco sendo investido, a falta de mão de obra qualificada, as leis de trabalho da época Vargas; tudo isto faz com que seja mais difícil ser competitivo no novo cenário. No entanto, esta é uma variável sobre a qual temos pouco poder e só de quatro em quatro anos.

Não é um momento de pessimismo, mas sim de reflexão para buscar tirar uma oportunidade de um cenário difícil que os desenvolvedores teremos pela frente com esta abertura.