Universidade pública e gratuita: o preço do atraso

Todos os anos, quando sai o ranking das universidades, eu costumo fazer esta mesma reflexão: grande parte do nosso atraso se deve ao fato de termos universidades públicas gratuitas.

Eu tenho consciência de que este post irá atrair a ira de muitos, e também que há bons argumentos em contra do que vou dizer, mas penso que algumas coisas precisam ser ditas, mesmo que aborreçam os leitores.

Hoje vimos que a USP, a melhor universidade do Brasil segundo praticamente todos os rankings existentes, ficou de fora do Top200 das universidades do mundo. Não é, definitivamente, algo a se comemorar. Fico triste, fiz ali o doutorado, mas isto não me isenta de voltar a afirmar que o modelo é ruim.

Universidades públicas gratuitas sofrem de uma dupla doença, estimulam a acomodação de bons professores e de bons alunos. Explico-me: numa universidade privada de alto nível temos bons alunos e bons professores e ambos estão motivados, os primeiros por que querem uma boa carreira e estão pagando caro pelos seus estudos, os outros porque são bem remunerados, tem boas condições de trabalho e sabem que acomodar-se é uma receita eficaz para a demissão ou a desgraça na carreira.

Na universidade pública brasileira estas duas coisas são complicadas. Os alunos não precisam se esforçar tanto, afinal não estão pagando nada, não vão ser jubilados se não fizerem muitas barbaridades, e no final acabam tirando seu diploma em uma universidade bem reconhecida no Brasil. Os professores tem estabilidade, mas também recebem um salário que não varia muito caso produzam mais, não tem tantas facilidades de financiamento para a pesquisa, mas também a falta de produtividade é suprida por outras atividades e brigas de egos.

Mas há o ProUNI, dirá o petralha furibundo. Sim, o ProUNI é o maior programa mundial de jogar dinheiro na lata do lixo. O ProUNI financia as Faculdades Amontoadas de Rio Pequeno da Casa do Chapéu, que é uma fábrica de produzir diplomas, eu já dei aulas numa destas e sei como a banda toca por lá.

Mas e os pobres? Dirá outro que se sente ultrajado pelos meus comentários. Os pobres não entram nas universidades públicas em geral. Os pobres tem seus diplomas emitidos por faculdades privadas que recebem dinheiro do governo, nosso dinheiro, para receber uma educação em geral sofrível.

Existe também as faculdades dentro da universidade pública, que pagas com o meu e o seu dinheiro, são antros de doutrinamento político partidário, sinônimos de pouco estudo e muita maconha. Sim, com raras exceções este é o panorama das escolas de humanas no país.

O aluno de escola pública tem pouca gratidão para com sua universidade, quanto mais com o contribuinte que pagou seus estudos. Se vemos nos EUA, pessoas que chamam sua Universidade de Alma Mater, doam grandes quantias, promovem eventos para arrecadar fundos aqui no Brasil isto não acontece.

Bom, mas o que você propõe? Pergunta alguém que ficou interessado nos argumentos. Se quisermos chegar no nível tecnológico que há nos EUA, na Inglaterra, Suíça, Japão, Canadá, Austrália, Cingapura, entre outros é preciso mudar a política educacional. Privatizar as universidades públicas ou instituir um regime de mensalidade nelas, tirar a estabilidade dos professores. Com o valor economizado investir em pesquisa e remuneração para bons professores, trazer professores de ponta, financiar alunos que precisam em Universidades que valem a pena.

Estimular os cursos técnicos. O diploma universitário não é algo que tem valor em si, mas se vem acompanhado de uma formação decente. Há muitos profissionais extremamente competentes que não cursaram universidades. E digo mais, melhor um excelente curso técnico que um curso mequetrefe de TI numa universidade de fundo de quintal.

Quer debater este assunto? Os comentários estão aí a disposição.

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  • Eu acho que uma alternativa que não seja a que o autor espera de típico “petralha furibundo” (péssimo gosto para artigo que se propõe a debate) seria não acabar com Universidade pública e gratuita, mas sim estabelecer controle de meritocracia na administração pública – ou, mais ainda, nas universidades. Critérios para avaliação científica, para produção, para efetivação.
    Eu não entendi como é que privatizar irá impedir as universidades de virarem fábricas de diplomas, nem em como isso vai aumentar a qualidade. Hoje, o que as universidades privadas querem, quase unanimemente, é, com má-vontade, cumprir os requisitos mínimos do MEC para continuarem a funcionar. Pesquisa é quase zero.
    É certo que nos EUA universidades privadas funcionam. Mas é certo que, fora de lá, não…

  • Diego

    Ótimo post. Acredito também que isso iria mudar alguma coisa, neste Brasil nada que o governo controla funciona direito. Claro teríamos outros problemas, como o amigo citou acima. Mas ainda sim acredito que tenha que tirar elas das mãos do governo.

  • Denis

    A USP ficou em 158

  • Daniel

    Uma pergunta, você dá aula em alguma Universidade pública? Te pergunto porque a pouco tempo sou funcionário do IFES, no Espírito Santo. Sempre quis seguir essa carreira, mas antes tinha uma visão parecida com sua. Entrei e tive outra visão. Quem quiser trabalhar e fazer um trabalho bem feito fará, não importa onde. Hoje te digo com toda a certeza que são muito poucos os acomodados na minha instituição. A grande maioria são doutores e com muita vontade de produzir, o que muitas vezes atrapalha, é a burocracia para se conseguir produzir, em termos de pesquisa, alguma coisa. O que na minha opinião melhoraria e muito isso, seria a entrada de instituições privadas para a parceria com a Universidade. No IFES onde trabalho essa é a solução que estamos buscando, e o profissional saí de uma intituição pública de qualidade com conhecimento técnico. A ideia de privatizar para se tentar, de certa forma, impor que hajam profissionais melhores não funcionará. E já dei aula em Universidades privadas, e o nível é absurdamente abaixo se comparado ao dos alunos da pública. Resumindo, a solução não é privatizar.

  • Pedro Paulo

    Prezado Francis,

    Respeito sua opinião. Só faço uma observação. Há várias universidades privadas fora dos EUA de ótima qualidade. Além disso em muitos países em que há universidades públicas elas são geridas por particulares e não pelo governo. Ainda nos locais em que há universidades totalmente públicas em geral o aluno tem que pagar anuidade.

  • Pedro Paulo

    Valeu Diego.

  • Pedro Paulo
  • Pedro Paulo

    Daniel, Já dei aula no IME e na UERJ. Atualmente dou aula como professor visitante na USP, não ganho por isto.

    Eu concordo que há locais com pessoas motivadas, mas como você mesmo diz o mecanismo estatal atravanca o progresso.

  • Daniel Almeida

    basta ver a baderna que os maconheiros estão fazendo na USP agora. Tem que privatizar aqui

  • Pedro,

    Então, pela sua resposta, concordamos que o problema não é ser pública ou privada, mas sim a gestão, correto?
    Mas tem mais: note que nos EUA muitas das universidades do ranking são públicas. No topo, a maioria é composta de universidades privadas (entre as 7 americanas do top 10, uma é pública e as outras 6 privadas). Já entre a 11 e 20 no ranking, 8 americanas, 3 são públicas. Entre 21 e 30, 5 americanas, 3 públicas. Ou seja: a excelência americana não é produto de suas universidades privadas (apenas), mas de uma enorme quantidade de excelentes universidades públicas, com educação de qualidade gente que não pode pagar.
    É uma opção ideológica defender que quem não paga não dá valor, e quem paga se esforça, como se fosse verdade que o aluno da faculdade “do Rio Pequeno da Casa do Chapéu” fosse gênio e se esforce, ou que os alunos da faculdade pública são acomodados. Eu não sei, mas TODOS os meus colegas da universidade pública hoje são muito bem-sucedidos no que fazem, e todos se esforçavam bastante. Vejo alunos de universidades públicas estressados com o conteúdo, com o nível das aulas, enfim.
    O problema na sua análise, no meu sentir, é que você não explica como a faculdade privada será boa (o que, venhamos e convenhamos, não é o caso hoje), e nem convence como a faculdade pública é necessariamente pior (já que sua opinião, que respeito, sobre alunos e professores acomodados me parece mais preconceituosa do que baseada em algum dado concreto).
    O problema das universidades públicas, como da administração pública em geral, é falta de gestão. É falta de cultura administrativa voltada à produtividade. Nem a tal reforma administrativa (feita por FHC) deu jeito nisso. Além da falta de recursos, de melhor remuneração, de melhor estrutura. Mas nada disso parece ser lá muito melhor em universidades privadas…

  • Pedro Paulo

    Francisco. Eu concordo com você que o problema não é só ser estatal, mas não concordo que tudo que é estatal é gratuito. Veja o exemplo que você citou dos EUA: lá há algumas universidades públicas boas, no entanto elas são pagas e muitas vezes não são baratas.

    Concordo que pode ser um estereótipo ver os alunos que não pagam como pouco interessados nos estudos, no entanto, principalmente na área de humanas isto é praticamente a lei.

  • Guilherme

    Mais reacionário, impossível. Deletado do meu RSS reader. Pra nunca mais voltar.

    Pior, talvez só o Reinaldo Azevedo.

  • Daniel Almeida

    Guilherme você já vai tarde.

  • Luiz Tadeu

    Olá tudo bem?
    a muito tempo atras vocês fez um post sobre HD hibrido.
    gostaria de saber sua opinião hoje sobre ele, realmente vale a pena?
    pergunto isso pois tenho um notebook com um processador bom, uma boa memoria ram.
    porem sinto muita demora para carregar os sofwares que uso. TIPO
    visual studio