iTunes Store Brasileira, jogos e os desenvolvedores: um texto que você precisa ler.

Ontem, como publicamos neste Blog, a Apple liberou a venda de jogos na iTunes Store brasileira. Escrevo um texto longo, mas acho que vale a pena ler.

O Brasil, por incompetência já conhecida do governo federal, era dos últimos países que não permitia a venda de jogos na loja da Apple.

É uma coisa a ser comemorada, todos ficamos felizes pelos consumidores; no entanto muitos desenvolvedores, eu me incluo entre eles, tinham um certo receio do que poderia acontecer com as suas vendas quando isto ocorresse. Eu pretendo analisar esta questão e deixar alguns conselhos.

Até ontem, um brasileiro que quisesse comprar um jogo, Angry Birds por exemplo, precisaria criar uma conta na iTunes Store Americana e comprar gift cards. O fato é que nem todos sabiam ou conseguiam operar desta maneira. Uma consequência, pelo menos muitos percebíamos assim, era que colocar um jogo entre os Top25 da iTunes App Store brasileira não era algo difícil. Muitos desenvolvedores locais estavam tendo boas receitas vendendo seus produtos aqui no Brasil.

A coisa funcionava como uma reserva de mercado, para os que são muito jovens para lembrar desta época da história recente do brasil deixo este link. Por falta de competição de alta qualidade, muitos de nós conseguíamos vender ou ter muitos downloads de jogos inferiores aos que os americanos, ingleses, japoneses e até argentinos compravam.

Agora, penso que todos os que fazemos jogos estamos com um certo receio: o que vão ser das minhas vendas e dos meus downloads? Será que vou perder muito dinheiro?

Sem fazer um exercício de adivinhação não consigo escrever uma resposta, ainda não tenho dados reais para sustentar uma análise precisa. Mas vamos ver alguns cenários, se você tiver paciência de seguir lendo.

É de se esperar que alguma perda financeira irá acontecer nos primeiros dias. Haverá, já está acontecendo agora enquanto escrevo, uma avalanche de pessoas comprando Angry Birds, Where is my Water, PvZ, etc. Isto significa que estas pessoas ficarão ocupadas com estes jogos e não irão baixar o SEU jogo: Boliche Medieval, Desafio das Bolinhas, etc.

Por outro lado, é de se esperar um aumento de tráfego na App Store brasileira. Muita gente que comprava via gift cards na loja americana vai parar de fazer isso e preferir comprar com seu cartão de crédito na loja brasileira. Alguns que faziam jailbreak para piratear jogos de 0,99 centavos vão ver que não compensa o trabalho e irão pagar .99 para ter o jogo de maneira mais confortável. Outros que compravam Apps mais esporádicamente serão mais assíduos frequentadores da App Store para adquirir os games best sellers e consequentemente podem comprar outros jogos e produtos.

Outro fato positivo: os desenvolvedores brasileiros não precisarão colocar seus jogos na categoria Entretenimento e por conseguinte terão uma maior exposição fora do Brasil.

Há desafios e oportunidades. É possível ter mais sucesso, mas é preciso mudar a estratégia. No início dos anos 90, quando o ex-presidente Collor acabou com a reserva de mercado em informática houve empresas que se reinventaram e prosperaram outras continuaram como estavam e morreram.

E que conselhos você daria para os desenvolvedores brasileiros? Confesso que venho pensando neste cenário há muitos meses, mas ainda não tenho uma resposta definitiva; não é fácil fazer uma boa análise sem dados reais. Posso oferecer algumas sugestões de bom senso e no futuro, espero que seja breve, quando tiver uma estratégia mais concreta, escrever outro texto.

  1. Melhore a qualidade do seu jogo: é um conselho obvio, mas que não é tão fácil de implementar. “Adapt or die” – ou você faz algo que as pessoas queiram jogar por algum tempo ou você será engolido pela avalanche de títulos de jogos que serão ofertados por aqui.
  2. Pense em aplicativos fora da categoria jogos: o mercado não jogos é bem menor e exige muito mais suor para crescer, mas não é desprezível. Você diversificando pode conseguir compensar em outra categoria o que perdeu com jogos. Posso dizer que há alguns meses conseguimos subir nossa fatia de vendas de aplicativos não jogos de 15% para 30%.
  3. Estude formas de comer parte do mercado que você tinha menos acesso antes. O mercado de Apps no Brasil é 20 vezes menos que o dos EUA, metade da Austrália, 5 vezes menor que a Inglaterra, oito vezes menor que o Japão, um terço do mercado chinês, metade do mercado coreano, etc. Antes você estava confinado na categoria entretenimento, lance uma nova versão e mude-se para a categoria jogos. Traduza seu jogo em outras línguas: há serviços em conta para fazer isto.

Não poderia deixar de mencionar a importância, já aqui comentada, de pressionar o governo. Os últimos dez anos com Lula e Dilma trouxeram um grande atraso tecnológico para o Brasil. Os danos que o enfraquecimento das agências reguladoras (em especial a Anatel) trouxe sentiremos e estamos percebendo. A falta de infra-estrutura, os impostos achacantes, a dependência de um estado paquidérmico e ineficiente, juros elevadas, praticamente inexistência de capital de risco sendo investido, a falta de mão de obra qualificada, as leis de trabalho da época Vargas; tudo isto faz com que seja mais difícil ser competitivo no novo cenário. No entanto, esta é uma variável sobre a qual temos pouco poder e só de quatro em quatro anos.

Não é um momento de pessimismo, mas sim de reflexão para buscar tirar uma oportunidade de um cenário difícil que os desenvolvedores teremos pela frente com esta abertura.

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  • Marcelo Barros

    Eu espero que o “brasileiro” mude também um pouco. A filosofia reinante do “de graça é mais gostoso” precisa evoluir. A falta de ética em comprar coisas piratas também. Todas as análises de mercado que vejo apontam esta forma de pensar local.
    Isto deve ser um pouco minimizado, creio eu, pela religião Apple, aparentemente com maior poder aquisitivo (bom, foi o que senti depois do caso “instagram on Android”).

  • Vi muitos textos sobre a chegada dos jogos à iTunes Store brasileira, mas nenhum deu atenção a esse lado (e nem sequer tinha me dado conta dele). Muito bom o texto.

    O modelo freemium não consegue evitar a pirataria? Apesar de ter péssimos exemplos, como Blood & Glory, há muitos bons, como Angry Birds (Facebook) e Draw Something.

    PS: apesar de sentir falta da galhofa do Mobile Analyst, gostei.