Aqui não fazemos as coisas à moda brasileira

Sábado é dia de off-topic, mas hoje não será tão off assim. Conto um caso que vivenciei no começo da carreira profissional e tiro algumas conclusões.

Nos primeiros anos deste século fui enviado pela empresa em que trabalhava para a Alemanha para um curso de certificação num equipamento que estávamos adquirindo. Como era o primeiro daquele que seria vendido para o Brasil, fui acompanhado por um funcionário da filial da vendedora no Brasil que faria o curso junto comigo na Matriz.

O curso tinha como pré-requisito a aprovação numa certificação da Microsoft, já que o produto rodava embarcado numa versão customizada do antigo Windows NT4. Eu fiz a minha prova, fui aprovado e arrumei as malas para a Alemanha.

Após ter as acima mencionadas malas extraviadas na conexão de Frankfurt para Hamburgo, chegamos a uma bela cidadezinha no norte da Alemanha onde nevava sem parar, no dia seguinte começaria o curso.

Logo de manhã, no local do curso fomos recebidos por um instrutor que parecia ter saído das SS e que fez a introdução. Acabada a introdução, chegou para o meu colega, que era da mesma empresa dele, e, sem muita cerimônia, se estabeleceu o seguinte diálogo:
– O senhor não foi aprovado na prova de certificação, o que faz aqui?
– Puxa, bem, eu pensei que havia passado, não sabia que não tinha sido aprovado, etc, etc, etc
– Veja aqui a cópia que temos, o senhor sabia que não havia sido aprovado e não estava preparado para o curso, lembre-se que aqui não fazemos as coisas à moda brasileira.

Instalou-se um silêncio fúnebre e eu saí em defesa do outro brasileiro, que havia sido humilhado em frente de toda a classe. Disse que ele havia me ofendido ao dizer que fazer as coisas acochambradas era típico de brasileiro e que não iria vender mais porcaria nenhuma para a nossa empresa.

Outro silêncio funebre, o Fritz resolveu ter um pouco de jogo de cintura, pediu desculpas e admitiu meu colega de pátria, e seu colega de empresa, como ouvinte.

O caso deu um enorme quid pro quo exigindo a vinda do vice-presidente mundial da empresa ao Brasil para pedir desculpas formais à minha empresa e a mim.

Passados os anos eu vejo que não deveria ter defendido o meu colega de pátria e que, apesar da forma, o Fritz tinha razão, os brasileiros têm um certo quê de desonestidade em seu DNA. (pausa para você vociferar contra o autor deste texto e continuar a ler se tiver coragem)

Porque no Brasil se tolera corrupção da forma como se tolera? Porque se pirateia app de USD 0.99? Porque os motoristas de táxi deixam o taxímetro ligado enquanto você pega o dinheiro, para aumentar o valor da corrida? Porque se aceita que a moralidade pública possa ser violentada em praça pública quando nossos estômagos estão bem alimentados?

Mas, não, eu acho que eu não estava errado em defender meu colega de pátria. Naquela época não éramos um povo desonesto, havia sim um tom de malandragem mas não havíamos perdido a decência ainda. Hoje não defenderia mais um brasileiro de similar acusação. Diria ao Fritz: tem razão, o brasileiro é assim, apenas não generalize, existem pelo menos uns 4% de brasileiros que não são deste tipo.

Imagem - Google Images para Corrupção

Disclaimer: Estas opiniões são minhas e não necessariamente coincidem com as dos outros autores do Zeletron

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  • albene

    Caro Pedro, discordo da colocação feita na última parte do seu texto… você é um otimista!!! Acho que os que “não são assim” totalizam menos de 1%. Aqui é a terra do “jeitinho”, e o jeitinho contaminou o governo, as empresas e as pessoas comuns, vamos a alguns exemplos: a) o governo deixa de planejar e licitar a aquisição de medicamentos e diversos outros serviços essenciais no prazo necessário para que futuramente possa fazer contratos emergenciais, que não precisam seguir a lei das licitações e favorece compras superfaturadas e repartição de recursos entre políticos, gestores e empresários; b) dentro das empresas privadas é comum a cobrança de “taxa” quando se adquirem produtos ou serviços; c) todo mundo fala que o governo não presta, mas quando é autuado pelo policial oferece dinheiro pra livrar a multa, quando chega a época do IRPF dá um jeito de lançar despesas médicas que não aconteceram, não respeita a faixa de pedestres, etc…. todos os exemplos citados foram vivenciados por mim. Já fui da iniciativa privada e hoje sou servidor público e percebo como o brasileiro é um povo contaminado pelo jeitinho, mas o pior de tudo é que parece que os estrangeiros que vêm trabalhar no país também são contaminados por essa prática. Vamos a um exemplo: em uma determinada ocasião fomos eu e o diretor da empresa para realizar uma venda de um sistema de CFTV para uma embaixada de um país europeu (não estou falando do leste europeu) e após realizar a proposta nos foi dito que essa era a proposta mais satisfatória para a embaixada, no entanto, só fecharíamos o negócio caso o gestor do processo de aquisição recebesse uma tv LCD 42 polegadas “por fora”… Fica a pergunta: Será que são as pessoas (DNA) ou é o clima tropical que favorece esse tipo de atitude? Não sei a resposta, mas sei que procuro fazer as coisas mais sérias possíveis, mas é desanimador viver em um país como esse….
    Abraços…

  • albene

    Pedro, em relação ao seu colega de trabalho uma coisa deve ser questionada: se ele sabia que não estava aprovado na certificação MS ele deveria ser demitido e ressarcir a empresa pela passagem e diárias na Alemanha. Eu particularmente acho pouco provável que ele não soubesse que não havia sido aprovado…

  • Pessoalmente acho q todo povo tem seu jeitinho e seus defeitos.
    O grande problema q vejo é nosso complexo de.inferioridade, em relação aos povo ricos e cultos, os quais por sinal só estão neste estado de riqueza e cultura graças ao sacrifício e a invasão de outras nações e culturas.
    Assim acho q fez bem em defender seu colega, já q empresas internacionais também erram. A exemplo disso o recente caso do NokiaBR, q foi simplesmente dizimado por uma empresa internacional, q tem origem em um país com perfeitos índices humanos.
    Pessoalmente, acho q os países dito educados, são é na verdade muito bons em esconder o jogo, já q em todos os países há esse tipinho de gente q dizem existir somente aqui.
    Bem é isso.

  • Rafael Kuba

    Se a Dilma ganhar a saída é o Galeao

  • Entendo que voce quis dizer: na epoca, periodo do me amadurecimento profissional e inicio do desenvolvimento de um espirito generalizado de intolerancia no em relação ao “jeitinho meia-boca” brasileiro, defendi meu compatriota.
    Hoje aqui no Brasil não toleramos, cada vez mais, a informalidade, a incorrenção e os atalhos morais… Preferimos não fazer, a fazer de qualquer jeito… E não toleramos mais sermos identificados, de forma genérica, como um coletivo de trambiqueiros, oportunistas e traquinas….
    Se foi isto, compartho a mesma visao e responsabilidade de em cada decisao diaria, cotidiana, afirmar um valor que transforma a tradicao cultural na qual cresci e fui (de)formado.
    Caso contrario, pense novamente, pois voce pode estar apenas – de forma negativa – tolerando e incentivando a “tradicao”.
    No meu Brasil, sao 4% que acreditam que as coisas nao mudam, nao mudaram e serao sempre iguais.

  • Mario

    Concordo plenamente com o texto. As vezes sinto vergonha de ser diferentes do pensamento da maioria das pessoas em rodas sociais e, constantemente, sou ridicularizado quando discordo do padrão de pensamento das “pessoas espertas”. Isto porque, em geral, no trabalho ou em circulos sociais, convivo com a maioria de pessoas com formação superior e muitos pós-graduados que, mesmo assim, não sentem vergonha de exibirem suas carteirinhas de estudantes, que lhes dão 50% de descontos em atrações culturais, mesmo não estando matriculados em nenhuma instituiação de ensino. Só para dar um exemplo.

  • Pedro Paulo Jr

    @albene – ele sabia que não havia sido aprovado. E a filial sabia que ele não havia sido aprovado. Não aconteceu nada depois.

    @jetther_bineli – concordo com você, no nosso Brasil não mudou nada, mas nosso Brasil encolheu muito nos últimos 8 anos e tende a ser mais perseguido dependendo do resultado de 03/Out.

    @mario – 100% de acordo. Há muito brasileiro que faz este negócio da carteirinha só para ficar neste exemplo.

  • Anderson W.

    Excelente relato Pedro Paulo, e uma grande lição de vida que teimamos em aprender.

  • Marcelo Barros

    Eu não me assusto mais com estas coisas, apenas me sinto envergonhado. A imagem que o Brasil vende dos brasileiros é esta. Se for mulher, adicione que é sem vergonha. É óbvio que existe muita gente séria, mas a quantidade de picaretas e mutreteiros é muito grande. Sempre encaro o congresso e senado como amostragem do povo brasileiro. Não são eles que são daquele jeito, somos nós que somos aqui, ou seja, a nação brasileira.

    Agora, eu acho que você não saiu em defesa do brasileiro picareta e mentiroso, como relatou. Você saiu em defesa dos brasileiros decentes, que querem construir uma nação da qual possam se orgulhar um dia. Isto valida a sua ação, perfeitamente correta e eu faria o mesmo.

    Quase apanho quando falo nas rodinhas que não tenho orgulho algum de ser brasileiro. Sem contexto fico parecendo o anti-cristo. Mas coloque o seu relato no contexto, por exemplo. Aí fica claro o sentido da frase.

  • André

    O vice não veio aqui para o Brasil porque você pensou que estava defendendo aquele brasileiro que estava em pé do seu lado aquele dia. O voce veio aqui porque você estava, de fato, defendendo TODOS os milhões brasileiros que NUNCA agiriam da mesma forma que aquele funcionário da filial. Mais ainda, você estava fazendo uma defesa universal: chega de preconceito!

    Foi um erro grosseiro do instrutor pegar o comportamento negativo de um e estender indiscriminadamente para todos os outros que, em comum, têm apenas a casualidade de terem nascido no mesmo país. Não me interessa se todos os brasileiros são ou não são honestos. A honestidade, ou falta dela, não é uma condição do ser humano que nasce no Brasil.

    Parabéns pelo brasileiro e, acima de tudo, cidadão do mundo, que você é!

  • André

    Desculpa o meu erro de digitação, onde lê-se “O voce veio”, eu quis dizer “O vice veio”. Obrigado.

  • Leo

    Há um poema de Elisa Lucinda, chamado “Só de sa****gem” que vai ao encontro do que está sendo discutido aqui:

    http://bit.ly/bDu6bT