Como não escrever sobre ciência

Eu gosto muito do estilo de texto do Cardoso que escreve no MeioBit. Acho que talvez seja um dos blogueiros mais talentosos do país. (Nos tribunais os advogados tecem louvoures antes de descer a lenha: –Data máxima vênia: o que Vossa Excelência diz é uma estupidez, portanto quando alguém começa um post da forma como fiz sai de baixo que lá vem paulada.)

Algumas vezes o Cardoso tem procurado escrever sobre ciência, é um tema que pelo que entendo lhe é muito caro, mas alguns textos prestam mais desserviço a ciência que o objetivo que pretendiam aduzir.

Antes que comece a tecer meus argumentos os leitores deste blog, infinitamente menos que os leitores que possui o MeioBit, poderiam honestamente perguntar: “Quem é você seu zé mané para criticar um dos maiores blogueiros do país?”

Uma resposta para esta pergunta seria passar o link para o meu curriculum lattes e mostrar que talvez alguma coisa eu entenda de ciência. No entanto a melhor resposta é: não importa quem eu sou mas os argumentos que estou trazendo.

O post de hoje do Cardoso no MeioBit faz uma análise de um experimento do Stanford Linear Accelerator Center in Califórnia que dá fortes indícios confirmatórios de uma teoria proposta nos anos 30 com relação a flutuações do vácuo, onde surgiria matéria no vácuo. A teoria é bastante complexa e não pode ser tratada aqui com mais detalhes, pretendo concentrar-me em duas conclusões que o autor do post no MeioBit tira:

Matéria, nova, zero km, inexistente até alguns momentos atrás. Enquanto alguns histéricos “alertam” contra cientistas criando Vida em laboratório, em 1997, ano da experiência cientistas criaram MATÉRIA a partir do NADA.

Outras partículas como Neutrons e Prótons demandam fótons mais energéticos, mas a técnica de criação (ou deveria dizer Criação?) é a mesma.

A afirmação não é verdadeira. Não houve uma criação a partir do nada, o nada é um conceito filosófico muito mais complexo que o vácuo. O nada está relacionado a ausência de ser e não a ausência de matéria. No entanto ao escrever a palavra Criação com maiúscula o autor parece querer inferir de um experimento que foi muito importante um sentido transcendente que muitos físicos honestos não ousam fazer.

Outro trecho menciona:

Quer dizer: Não só estamos criando partículas do nada, como para isso estamos afetando a própria estrutura do espaço-tempo. Nada mau para uma espécie que 500 anos atrás matava gente por dizer que o Sol não girava em torno da Terra.

Esta sandice histórico científica não pode ficar sem contestação. O autor a menos que ele conheça outra pessoa deve estar se referindo ao caso Galileu Galilei e insinuando que ele teria sido morto por dizer que o Sol não girava em torno da Terra. Galileu Galilei morreu aos 77 anos de causas naturais, e não foram as mesmas causas naturais que mataram o Tim Lopes, foi provavelmente uma fibrilação atrial que culminou num acidente vascular cerebral. Numa época em que a expectativa de vida era algo em torno de 35 anos pode-se dizer que Galileu morreu “de velho”. Não vou entrar aqui em discussões históricas sobre o processo do Santo Ofício contra Galileu mas pode-se afirmar com toda a certeza que nenhuma pessoa que queira ter honestidade intelectual pode afirmar que Galileu foi morto por dizer que o Sol não girava em volta da Terra. Ele sim foi condenado por uma série de erros de eclesiásticos e do próprio Galileu que é fácil avaliar em retrospectiva mas não julgar sem levar em conta as circunstâncias históricas.

Em resumo, este texto não tem como objetivo criar uma celeuma com o MeioBit ou o Cardoso, mas mostrar que não podemos tirar inferências infantis de experimentos científicos sem o risco de prestar um desserviço a ciência.

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