A alvorada da Internet

Corria o ano de 1993, havia acabado de entrar na PUC-Rio e como todos os bolsistas tinhamos que lutar todos os dias para manter nossas médias acima de sete. Naquele ano aconteceu meu primeiro contato com a tal da Internet. Em 93 nem todos os lugares da PUC tinham ainda conexão com a Internet e um dia pediram, no laboratório em que trabalhava para ganhar uns trocados, que mandasse um e-mail para o pessoal do suporte do OS/2 para resolver um problema de instalação. Naqueles anos mandar um e-mail consistia em escrever a mensagem à mão, levar para a secretária, esperar a resposta vir e pegar a resposta impressa. Lembro até hoje com emoção o primeiro e-mail que mandei com esta tecnologia primitiva. Contei em casa orgulhoso que havia recebido um e-mail de Chicago!

Como aquele laboratório calotava nossos salários (até hoje nunca recebi um centavo do nosso chefe, conhecido como Mr Walrus) mudei de laboratório e fui fazer iniciação científica com um professor, de aparência peculiar, e tive a minha primeira conta de e-mail na internet.

Depois de torrar por semanas o administrador da rede, o todo poderoso administrador, a quem devíamos reverência, meu companheiro de trabalho Rafael e eu conseguimos nossas contas de e-mail e acesso a workstations Sun 2. Não havia nenhum browser de internet naquela época, nem o Mosaic estava disponível para nós, mas havia ftp, telnet e outros brinquedos interessantes.

A Sun SparcStation2, com seus 128MB Ram e 40Mhz era considerado um monstro computacional, várias pessoas estavam conectadas nela simultâneamente fazendo seus trabalhos e programas, até que descobrimos o fork.

O fork é uma função do C nos Unix, para quem ainda não foi apresentado a ele, que cria cópia de um processo. Aí pensamos, puxa e se fizermos um loop infinito de fork, o que vai acontecer?

Rodamos o seguinte programa (não faça isto em casa) :

void main () {
      while (1) {fork();}
}

Em poucos milisegundos travou tudo e saímos rapidamente do local antes que o administrador chegasse. Assim, após descobrir que podíamos rodar o programa remotamente travamos todas as workstations muitas e muitas vezes … Era a alvorada da Internet, como um bebê que descobre seus pés.

A segunda grande descoberta foi já depois de 96, de uma falha que havia no IIS 3.0 com o Windows NT 4 que escrevendo determinada url no navegador conseguia que toda a máquina caia e ganhava uma tela azul. As primeiras vítimas foram os colegas de laboratório, depois pensamos, será que funciona num destes sites de vendas de livros? Como não custava tentar, tentamos, e funcionou… A partir daí, até a Microsoft lançar o service pack que consertou o problema sempre havia um engraçadinho que fazia sua máquina crashar e para trabalhar era preciso tirar o cabo da rede.

Foram bons tempos aqueles. Se você também viveu esta alvorada da Internet conte sua história nos comentários.

Bom final de semana a todos.

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  • Rafael

    eu lembro do netbus.. qndo aprendi como usar botei em vários pcs de amigos pra ficar abrindo e fechando o drive de CD.. tá.. eu tinha 14 anos na época e achava legal 🙂

  • Leo

    Lá pelos idos de 92 e 93 era muito caro comprar CD importado no Brasil. Até que um amigo que trabalhava comigo descobriu a CD Connection que vendia CDs pela Internet. E o acesso ao sistema de compras era por telnet.

    Certamente não era tão emocionante quanto seu relato mas o máximo poder comprar CDs que (naquela época) nunca sairiam por aqui e, o que é melhor, a um precinho bem camarada pois até 50 dólares estava livre de impostos de importação. Dava pra pedir 2 ou 3 CDs (os mais antigos custavam cerca de 12 dólares) e receber em casa.

    Para quem quer saber ou matar as saudades (se é que alguém tem saudades disso) de como era “navegar” por telnet, vale uma olhada no site da banda The Raconteurs (http://www.theraconteurs.com/).

  • José Antonio

    Muito bacana o site dessa banda. Bem bolado.

    O truque do fork eu também usava lá no laboratório da UFRJ, em 95 ou 96, para liberar aquela máquina boa (um 486 DX4 100MHz) que os caras ficavam o dia todo ocupando. Eu logava em outra pé de chinelo (386 DX) e dava um telnet para a melhor e rodava o fork (minha conta já tinha até um a.out compilado com isso). Depois era esperar o cabra sair da máquina dizendo que ela estava ruim e reiniciar o computador.

    Meu primeiro e-mail foi de um laboratório de terminais burros da Eletrônica da UFRJ. Eu tinha um conhecido lá que mandou criar um e-mail para mim. Bons tempos. Ali foi meu primeiro contato com a Internet. Usando aqueles terminais burros, eu descobri um FTP aberto na Universidade de Utah com letras e cifras de milhares de músicas em TXT. Fiz a festa!

    Nessa época me lembro de uma conversa com meu amigo Gleison (que também lê esse blog) quando eu falava que minha mãe nunca conseguiria usar um e-mail. Hoje minha mãe tem até blog, hehehehe.

  • Gleison

    hahaha, eu nem lembrava dessa conversa, Ze!

    Eu lembro dos programinhas que a gente criava (jah num segundo momento da evolucao rs) para roubar as senhas das pessoas que se logavam na rede Novel (durante muito tempo a gente precisou ter um disquete de boot pra se logar nas maquinas!). Como o login era por linha de comando, a gente fazia uns progamas que ficavam residentes na memoria (DOS x interrupcoes!) que simulavam o login do netware. Quando o incauto digitava a senha, a gente dizia que estava errada, salvava em um arquivo e chamava o login correto do netware. Maneiro era descobrir que o pessoal usava o nome do cachorro ou da namorada rs.

    Depois a gente evoluiu e passou a avacalhar a vida de todos usando as interrupcoes do DOS para repetir uma letra depois que o usuario digitava. Assim, quando alguem digitava “cls” no prompt de comando, a gente fazia o computador escrever “clls”, por exemplo. A letra mais escolhida era o “a” .

    Tudo isso claro com a ajuda do Dario, que era nosso projeto de hacker oficial. Afinal estava sempre tentando criar um virus 🙂

  • Muito bom esse texto, bem como todo o resto do blog, Zé.
    O artigome fez lembrar muitas coisas… é… estou ficando velho…

  • Meus primeiros contatos com a internet forma em 1997 quando eu morava em Bh e fazia cursinho pré vestibular, eu morava em uma república na época e um dos meus amigos comprou na época um pc muito bom mmx 200, muito “rápido” pra época rodando o “revolucionário” Win95, lembro que na época não pagávamos provedor pois esse meu amigo cursava ciência da computação na PUC e tinha uma porção de senhas de provedores de acesso e só pagavamos o pulso, conectavamos mais após meia-noite para pagar um só pulso. era a época do mirc, bate-papos da Uol, marcavamos hora pra entrar na sala, sempre as mesmas pessoas no mesmo horario, sem essa baixaria que ronda por lá nos dias de hoje.
    època que usava oICQ, msn ainda não era muito popular, que não se lembra daquele som de msgs?? rsrs ou do barulho de máquina de escrever quando digitavamos em um chat do icq? As letras iam aparecendo a medida que digitava.

  • Erlon

    obrigado por me fazer lembrar dessa época, revivi muita coisa agora em minha mente, meu comentário estava ficando tão grande que até virou um post. Muita coisa mudou nesses anos. valeu mesmo,Inspirador esse seu post.
    Momento nostalgia

  • Carlos Bueno

    Realmente muito boa esta época onde tudo era novidade. Ficar olhando a tela verde tentando inventar algo que valesse a pena “ver o computador fazer” era muito bom…
    Me divertia digitando dir *.*/s e vendo ele rodar todas aquelas palavras…doiedera.
    O pior que já fiz Formatar o computador da empresa (o único) e depois de conseguir desformatar e deixar tudo como estava não resisti. Formatei de novo para ver se dava certo….É claro que não deu e parei todo o processamento….
    Bons tempos! Obrigado pelas boas lembranças!

  • Mais ou menos no mesmo período que você descreve, eu estava trabalhando no LNCC na Urca, na equipe do Roberto Beauclair. Foi lá que todos do lab vimos, pela primeira vez, a primeira versão do NCSA Mosaic! Lembro que ficamos impressionados com a facilidade que trazia o tal do hyperlink! heheheh
    Algum tempo antes, minha primeira conta de email acho que foi do IBASE… Eu fiz essa conta para poder me corresponder com o pessoal do Imperial College de Londres para tentar vaga no curso de Computer Science deles.
    Bons tempos aqueles.. Valeu pelas lembranças!

    Abs

    Edmundo

  • Pedro Paulo

    O Roberto Beauclair me ensinou muitas coisas nos idos dos anos 95. Se encontrar com ele manda um abraço!

  • Quando começei a usar internet (discada e caríssima) foi no serviço em 97, conta de e-mail? criei em 99 e frequentei a famosa sala de bate-papo “Tech and Gadgets” da MSN, antes do 11 de setembro de 2001, quando eles fecharam a sala e restringiram acesso de fora dos EUA. Fiz muitos amigos virtuais que até hoje me acompanham, tem um cara da Jordânia que eu acompanhei quando ele entrou na faculdade ainda garotão e quando se formou foi para os EUA, uma amiga da Escócia que fazia uma loucuras em html e uma amiga do interior de Minas Gerais que começou faculdade nessa área em razão dos nossos bate-papos. A Internet fez e faz escola.

  • Matheus

    E pensar que hoje da pra aprender certas coisas so procurando no google…
    gostaria de saber como decidiram fazer faculdade de informatica ou algo relacionado ja que naquela época, me pareceu que nao se falava tanto assim em computador internet essas coisas… e como algumas pessoas, familiares coisa e tal, reagiram a essa escolha… porque to confuso e acho que podem me ajudar 🙂
    grato 😀

  • Pedro Paulo

    Acho que o @marcelobarros que é o mais experiente aqui podia escrever um post respondendo a pergunta acima..

  • Matheus

    Se puder eu agradeço, com certeza irá me ajudar a decidir o curso que eu devo seguir 😀
    e talvez ajude tambem outros jovens confusos que, como eu, leêm o zeltron 😀

  • Matheus

    Se puder eu agradeço, com certeza irá me ajudar a decidir o curso que eu devo seguir 😀
    e talvez ajude tambem outros jovens confusos que, como eu, leêm o zeletron 😀

  • Marcelo Barros

    Hoje eu procuraria encontrar uma boa relação entre o resultado de uma pesquisa vocacional e uma análise de disponibilidade de emprego e salário médio. Idealismo sem salário não rola. Também faria um curso de empreendedorismo, paralelamente.

    No meu caso, quase vinte anos atrás, a escolha não foi difícil. Eu gostava de matemática, física e computadores. Eu já tinha o meu MSX e era um bom programador em, eh, basic. Ou seja, matemática, física ou Engenharia elétrica eram as possibilidades de cursos. Não existia engenharia da computação e computação pura não me agradava. Logo, fiquei com engenharia, que conseguia amarrar os meus desejos.

    Por falta de orientação não fiz nenhuma análise financeira da escolha, algo importante. Meus pais nunca se opuseram à minha decisão, por mais que pudessem preferir medicina.

  • Matheus

    Ironicamente tambem estou entre estas duas
    engenharia ( no meu caso da computação com especialização em jogos sei la…ou civil) e medicina amo ambas as areas mas fica dificil saber qual eu seria melhor… e tambem penso em poder ser oficial do exercito (alguma escola como EsPCEx, Escola Preparatoria para Cadetes do Exercito, ou EN, Escola Naval).. são muitas escolhas… e to com 17… por isso pedi ajuda :D… Mas.. Marcelo (que ja “deu uma palhinha”) e outros… são formados em que? porque isso que o Marcelo Barros disse não “mostrou” a profissão dele…. e isso que disse ja começou a me ajudar mais 🙂

  • Muito obrigado ao Edmundo e ao Pedro Paulo pelas lembranças.
    Um grande abraço para ambos.